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Pediatria · 6 min de leitura

Quando o bebé não pega na mama: o que pode estar por trás

Quando a pega custa, a culpa não é sua nem do bebé. Tensões do parto, a mobilidade da boca, da língua e do pescoço e a postura de ambos podem pesar. Explicamos o que observamos e como trabalhamos em equipa.

Joana Alves
Fisioterapeuta · Osteopata · Acupuntora ·

O bebé chora junto à mama, solta-se a meio, prefere sempre o mesmo lado, adormece ao fim de poucos minutos. Ou mama durante muito tempo e a mãe fica com os mamilos feridos e doridos. Dizem-lhe que «é só ajustar a posição», mas já ajustou tudo e continua difícil.

Antes de mais: quando a pega não corre bem, a culpa não é sua, nem do bebé. Amamentar é algo natural, mas não é automático. Envolve dois corpos que estão a aprender a encaixar, e às vezes há algo no caminho que vale a pena observar com mais calma.

A amamentação é um trabalho de equipa

Para mamar bem, o bebé tem de abrir bem a boca, posicionar a língua por baixo do mamilo, fazer uma vedação com os lábios e coordenar sucção, deglutição e respiração. Tudo isto ao mesmo tempo, com o pescoço e o tronco numa posição que lhe permita estar confortável.

Do lado da mãe, conta a posição do corpo, a forma da mama e do mamilo, a dor ou o cansaço do pós-parto, e a confiança que vai ganhando a cada mamada.

Quando uma destas peças não encaixa, a pega fica mais difícil. Por isso olhamos para os dois: mãe e bebé.

O que pode estar na raiz

Há muitas razões possíveis para as dificuldades na pega, e várias podem coexistir. Algumas das que observamos com frequência:

Tensões do parto

O nascimento é uma experiência física intensa também para o bebé. Um trabalho de parto longo ou muito rápido, uma posição difícil no útero ou no canal de parto, o uso de ventosa ou fórceps, ou uma cesariana podem deixar o bebé com zonas de maior tensão, por exemplo na cabeça, no pescoço ou na mandíbula. Isto pode manifestar-se como preferência por um só lado, dificuldade em rodar a cabeça ou desconforto em certas posições.

Mobilidade da mandíbula, da língua e do pescoço

Para mamar, o bebé precisa de abrir bem a boca e de mover a língua com liberdade. Se a mandíbula abre pouco, se a língua tem pouca mobilidade ou se o pescoço está mais rígido de um lado, a sucção pode ser menos eficaz. O bebé cansa-se, solta-se ou faz mais força com os lábios, e a mãe sente dor.

A avaliação do freio da língua é feita por profissionais com formação específica, em articulação com o pediatra. O nosso papel é observar a mobilidade global e trabalhar as tensões à volta, sem substituir essa avaliação.

Postura da mãe e do bebé

Muitas vezes, a mãe amamenta curvada, com os ombros tensos e o bebé longe do corpo, porque tem dor nas costas, uma cicatriz que incomoda ou simplesmente cansaço. O bebé, por sua vez, pode estar com a cabeça rodada em relação ao corpo, o que dificulta engolir. Pequenos ajustes de apoio e alinhamento fazem diferença para os dois.

Dor e recuperação da mãe

Uma cicatriz de cesariana sensível, dor perineal, tensão no pescoço e nos ombros ou mamilos já feridos tornam cada mamada mais difícil. Cuidar da mãe também é cuidar da amamentação.

Como trabalhamos

A primeira consulta começa por uma conversa: como foi a gravidez e o parto, como estão a correr as mamadas, o que sente, o que o bebé faz. Se possível, observamos uma mamada, com calma e sem pressa.

No bebé, a osteopatia pediátrica usa toques muito suaves para avaliar e trabalhar a mobilidade da cabeça, do pescoço, da mandíbula e do tronco. Muitos pais referem que o bebé fica mais confortável e que as mamadas se tornam mais fáceis, mas cada bebé responde à sua maneira e não prometemos resultados.

Na mãe, podemos trabalhar a postura, a tensão nos ombros e no pescoço, a cicatriz de cesariana ou o pavimento pélvico, e procurar posições de amamentação mais confortáveis.

Não trabalhamos sozinhas. A nossa intervenção complementa o acompanhamento de:

  • parteiras e enfermeiras especialistas, que acompanham a mãe e o bebé nos primeiros dias e semanas;
  • conselheiras ou consultoras de lactação, que avaliam a pega, a transferência de leite e a gestão da amamentação;
  • o pediatra ou médico de família, que acompanha o crescimento e a saúde do bebé e faz os diagnósticos necessários.

Sempre que faz sentido, recomendamos que a família procure ou mantenha estes acompanhamentos.

O que pode experimentar já

  • Aproxime o bebé de si, e não a mama do bebé. Barriga com barriga, orelha, ombro e anca alinhados.
  • Apoie-se bem: costas encostadas, pés apoiados, almofadas a segurar o peso do bebé. Os seus ombros devem poder descer.
  • Experimente posições diferentes, como a posição reclinada (a mãe meio deitada, o bebé de barriga sobre ela), que ajuda muitos bebés a encontrar a mama sozinhos.
  • Pele com pele fora das mamadas também ajuda o bebé a acalmar e a orientar-se.

Quando procurar ajuda

Procure apoio (parteira, consultora de lactação, fisioterapia ou osteopatia) se:

  • as mamadas são sempre dolorosas ou os mamilos estão feridos;
  • o bebé prefere sempre o mesmo lado ou tem dificuldade em rodar a cabeça;
  • o bebé se solta muitas vezes, faz estalidos ou parece cansar-se muito depressa;
  • sente que cada mamada é uma luta.

Fale com o pediatra ou procure cuidados médicos com urgência se o bebé recusar alimentar-se, estiver muito sonolento, mole ou difícil de acordar, tiver febre, molhar poucas fraldas, não estiver a ganhar peso ou estiver a perder peso, tiver a pele ou os olhos amarelados que não melhoram, ou vomitar com frequência. Na mãe, procure o médico se tiver febre, uma zona da mama vermelha, quente e dolorosa, ou mal-estar geral.

Um caminho que se faz a dois

As dificuldades na pega não querem dizer que não consegue amamentar. Querem dizer que vale a pena olhar com mais atenção para o que o seu corpo e o do seu bebé estão a comunicar.

Se quiser conversar sobre o seu caso, envie-nos uma mensagem pelo WhatsApp. Respondemos com calma e, se fizer sentido, marcamos uma consulta para a mãe, para o bebé ou para os dois.

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